A Primeira Certeza
Ensaios: Meditações Metafísicas - René Descartes
Meditação Segunda - Da Natureza do Espírito Humano; E de Como Ele é Mais Fácil de Conhecer do que o Corpo
É evidente que, ao colocar tudo que se percebe externa e internamente, no campo mental, em dúvida e com base de que ainda existe um ser maligno que está estreitamente engajado em enganar toda e qualquer percepção, fica complicado de compreender o que, de fato, realmente é verdadeiro no mundo, se é que existe algo de verdadeiro. Entretanto, se nada é verdadeiro, o que seria eu nisso tudo? Certamente, eu seria alguma coisa. Mesmo convencido de que nada exista, Descartes não tem dúvidas, ele está certo de que existe. Veja, mesmo que ele seja completamente enganado, enquanto ele pensar que é alguma coisa, não há dúvidas de que isso é verdadeiro. Logo ele afirma: eu sou, eu existo e isso é verdade em qualquer cenário.
Agora, certo da existência, busco entender o que sou. E vasculhando os diversos argumentos que estão todos postos em xeque, como o meu próprio corpo, minhas características, ou até mesmo minhas necessidades como comer e dormir, examinando-as com afinco, é certo concluir que não sou nada do mundo físico-material; mas então o que seria eu? E ainda, utilizando o ser maligno que a tudo me engana para aprofundar ainda mais minhas pesquisas, até mesmo no campo do sentir, é possível verificar que não há como sentir algo sem a existência de um corpo. Entretanto, é fácil visualizar que durante todo esse processo estive pensando, me convencendo de que nada é verdadeiro; então só posso chegar a uma conclusão: eu sou alguma coisa verdadeira que pensa.
Para entender profundamente o que sou, não posso de maneira nenhuma pensar que sou alguma outra coisa que me seja conhecida de mim mesmo, nem que eu possa imaginar isto, pois qualquer dessas alternativas me são desconhecidas ou falsas. Como também tenho de me atentar que o próprio ato de pensar e até de imaginar também podem ser falsos, não posso considerar que o que eu penso, imagino e até sinto seja de fato verdadeiro. Mas se tudo, com exceção de que sou e de que penso, como conseguirei identificar o que me é verdadeiro?
Preciso dar um salto, abrir um espaço nos limites que eu havia colocado sobre a dúvida para, primeiro, entender como eu consigo compreender a natureza das coisas que me são externas, para então voltar às restrições que fiz e verificar se essa percepção está correta ou não.
Imaginando, pois, agora um smartphone em duas situações. Primeira: com ele desligado, trata-se basicamente de um objeto retangular, com uma face predominantemente feita de vidro e a outra, normalmente feita de metal, com alguns círculos pequenos em material diferente do metal. Fazendo uma análise mais rápida, pode-se dizer que é um retângulo liso, frio, inerte, mudo e escuro. Seus sentidos o percebem como uma "plaqueta de vidro e metal". Segunda: quando ele está ligado e em uso, a tela escura ganha luz, cor, movimento, som. Vibra ao toque. Aquece com o processamento. Suas propriedades sensíveis são completamente diferentes. Agora, com essas duas situações, precisamos entender: o objeto que antes era um "retângulo frio e mudo" deixou de existir e foi substituído por um novo objeto "luminoso, falante e quente"? Claramente não. Nossa mente concebe que é o mesmo dispositivo. Sua essência não é a da tela preta ou as imagens coloridas, nem o silêncio ou o barulho. Sua essência, captada pelo intelecto, é a de um processador de informação, um mediador digital, um corpo que faz com que seja possível conectar-se à internet. Conhecemos o smartphone não pelo que vemos ou tocamos a cada momento, mas pelo conceito mental que temos dele. Isso independe de como percebemos ele com nossos sentidos.
Com isso posto, quem pode ter concebido o smartphone em nossa mente senão a nossa própria essência de existir, o nosso espírito? Mesmo que o ser maligno nos tenha enganado quanto a qualquer percepção que tivéssemos, ele não precisaria criar nada, pois eu concebi a essência do smartphone por mim mesmo. Através do meu próprio entendimento concebi, sozinho, o que era um smartphone. Não imaginei, nem percebi; eu o concebi pelo pensamento, eu capturei a sua natureza pelo pensamento e a aprisionei em uma palavra que chamei de smartphone. A partir disso, reconhecer minha própria essência, minha natureza, fica bem fácil, e a isso chamo de espírito.