Deus Necessário ou Morto?
Um diálogo entre Descartes e Nietzsche
Nietzsche em seu aforismo 125, o texto de sua famosa frase "Deus está morto!" escrito no século XIX, está chamando a atenção de todos através do discurso de um homem louco para algo que, à primeira vista, ou com um olhar menos atento, apenas entende que a crença em Deus não existe mais, ou que não é mais necessária. Entendo esses olhares como muito desatentos, pois o texto de Nietzsche é de uma sutileza e profundidade muito interessantes.
Quero comparar a noção desse Deus morto de Nietzsche com a construção que Descartes propôs no século XVII. A primeira coisa a se questionar aqui é: Qual Deus Nietzsche diz que está morto? Apenas pelo seu texto no aforismo 125, não é possível determinar isso, então vou me limitar ao que sei sobre o autor. Nietzsche rejeitava a crença no Deus cristão e em qualquer sistema metafísico, pois isso se tornou insustentável para o homem moderno. Por ser materialista, Nietzsche não concebia nenhuma ideia sobre algo superior, supremo e abstrato ao que ele entendia como realidade. E é aqui que sua ideia e a de Descartes divergem, logo em sua origem. Descartes utiliza de uma análise interna e de uma estratégia que faz com que, inicialmente, ele em busca de conceber verdades fundamentais, construa toda sua lógica baseado na própria compreensão e intrinsecamente ligada à existência de algo fundamentalmente real. Como Nietzsche não parte dessa linha de pensamento, ao dizer que Deus está morto, e que nós o matamos, está considerando que o próprio entendimento do homem fez com que essa ideia concebida de Deus deixasse de ser verdadeira ou real. Isso conflita diretamente com um dos principais argumentos de Descartes que propõe a própria concepção da ideia de Deus, como algo perfeito, torna-o real.
Apesar de suas linhas de pensamento completamente divergentes, eu entendo que as duas têm partes que considero verdadeiras e reais. Nietzsche está correto ao afirmar que "apenas quem nascer depois de nós pertencerá, por esse crime, a uma história mais elevada que toda a história até então!" – o crime é o assassinato de Deus feito pelo homem. Nesse ponto prático, concordo plenamente com ele: superada a ideia de Deus como muleta moral, o homem finalmente assumirá a responsabilidade por seus valores, e disso virá uma história mais elevada. No entanto, o erro de Nietzsche, a meu ver, está em anular completamente a concepção de Deus também no plano metafísico. Pois, como bem demonstra Descartes, a própria existência do "eu" e a sua capacidade de conceber o aperfeiçoamento apontam para uma fonte que o transcende. O fato de o homem dever assumir a responsabilidade não significa que ele possa ter se criado do nada. Seja essa fonte nomeada por Deus, Natureza, ou Biscoito, ela é, assim, algo transcende o próprio homem.